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Entretenimento publicado em 12/02/2010 às 01:54:18
Onde nascem os monstros

Origens da violência têm sido um dos temas preferidos de Haneke

Um dos maiores cineastas da atualidade, o austro-alemão Michael Haneke levou o Grande Prêmio do Júri em Cannes com A Professora de Piano (2001) e a Palma de Ouro no mesmo festival por Caché (2005). Como nesses filmes e nas duas versões que rodou de Violência Gratuita, o diretor e roteirista conta em A Fita Branca uma história em que a brutalidade é uma pulsão destrutiva escondida nos grotões mais obscuros da sociedade e da família.

No caso de seu mais recente longa, Haneke especula as raízes do mal em um aparentemente pacato vilarejo alemão às vésperas da eclosão da I Guerra – e o resultado de A Fita Branca é uma fotografia genial e cruel da gênese do nazismo.

A inaudita violência subjacente à sociedade contemporânea – especialmente a europeia – tem sido o tema central da filmografia de Michael Haneke. Em títulos como os já citados e em Código Desconhecido (2000), as tramas são permeadas por questões momentosas como a xenofobia, a intolerância, o ressentimento de classe, o excesso de conforto que cria pessoas incapazes de lidar com a realidade, o fetiche das imagens e da cultura midiática. Seus filmes não hesitam em mostrar cenas de brutalidade explícita para sacudir os conceitos do espectador – sejam eles a respeito da vida em sociedade, da natureza humana, da tolerância racial e religiosa ou da situação política internacional.

Nos mais recentes filmes de Haneke, porém, as relações de causa e efeito nas ações e psicologia dos personagens ficaram mais enigmáticas – apesar de inequivocamente existirem. Quem está vigiando e gravando a rotina do casal de protagonistas em Caché? Há relação entre a infidelidade e a insensibilidade do personagem de Daniel Auteuil e o episódio de sua infância envolvendo imigrantes argelinos? As respostas estão na tela – mas são mais intuídas do que didaticamente oferecidas pelo diretor. Em A Fita Branca, Haneke retrocede no tempo para lançar uma luz ao mesmo tempo reveladora e fugidia sobre o caldo de cultura que propiciou o florescimento do nazismo no seio da sociedade alemã. O longa acompanha os estranhos episódios de um vilarejo alemão entre 1913 e 1914, que a voz do narrador em off justifica logo no começo como esclarecedores para entender “o que aconteceria no meu país alguns anos depois”.

Aos poucos, a misteriosa série de violências cometidas indistintamente contra crianças e adultos do lugar insinua uma espécie de ritual de punição, cujos objetivos e algozes não se apresentam com clareza exata. O que cintila em A Fita Branca como se exposta ao sol, no entanto, é a fonte de autoritarismo, rigor e insensibilidade onde a ideologia nazista bebeu e encontrou forças para disseminar-se. De maneira quase pedagógica, Haneke demonstra ao longo do filme como aquela Alemanha em microcosmo viva sob a égide desses valores, reproduzidos no âmbito do poder público, da escola, da igreja e do lar. Mais: o roteiro demonstra como não havia distinção de classe quanto à filiação a esses princípios – da aristocracia rural (representada pelo barão) ao camponês mais simplório, passando pela burguesia (o médico) e o clero (o pastor) –, praticamente todos os adultos da comunidade impõem uma educação severa e brutal aos filhos, que se reflete também na ausência de sentimento das relações entre os casais.

Em uma entrevista publicada na revista americana New Yorker no final do ano passado, Heineke reiterou que prefere que A Fita Branca seja compreendido para além da especificidade da história: “Não ficaria feliz se esse filme fosse visto como um filme sobre um problema alemão, sobre o nazismo. Este é um exemplo, mas significa mais que isso. É sobre um grupo de crianças, que são doutrinadas com alguns ideais e se tornam juízes dos outros – justamente daqueles que empurraram aquela ideologia goela abaixo deles”. Como no título do primeiro e impactante filme alemão rodado depois da II Guerra, Os Assassinos Estão Entre Nós (1946), o diretor lembra nessa obra-prima que é A Fita Branca que, a despeito de suas mais íntimas e singulares perturbações, os monstros também são fruto das sociedades em que convivem.

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